| "É de
pequenino que se torce o pepino". Meus pais acreditavam
nesse ditado e não davam folga. Na nossa casa havia
limites para muitas coisas e esses limites acabavam se
transferindo para a rua e para nossa relação com
as pessoas, principalmente para os mais velhos, para
professores, para autoridades, enfim, para quem não fosse
moleque como nós. Havia outros ditos que eles também
preconizavam, como: "Quem diz a verdade não merece
castigo" ou "Se não for seu, não mexa, não
pegue". Meus irmãos e eu aprendemos, acho que
funcionou, ao menos, que eu saiba, nenhum de nós restou
traumatizado. Victor Hugo diz, em Os Miseráveis: "O
crime do homem nasce na ociosidade da criança". É
duro, mas é real. Na atualidade, os problemas sociais em
que jovens estejam envolvidos, grande parte tem origem na falta
de controle por parte dos pais ainda na fase infantil. Limites
flexíveis ou não impostos por pais e mães
agravam a instabilidade, por si só já difícil,
da adolescência.
A Constituição de 1988 tende a ser liberal
por força do período de exceção que
a antecedeu, isso se compreende. E compreende-se, também,
que essa liberalidade acabe transferindo-se para as relações
sociais, a família aí incluída. Mas, a
euforia já passou, minha gente. Nenhuma liberdade pode
ser desmedida sob pena de contaminar a sociedade com um "tudo
pode" que é mais pernicioso que a falta de
liberdade, pois acaba em libertinagem. Aristóteles
acreditava que Democracia em excesso tende a Anarquia. Tomara
que não! Muitas famílias, empenhadas na sagrada
luta pelo "pão de cada dia", transferem para a
escola uma obrigação que é sua: educar sua
prole. Com isso, querem criar uma nova alternativa pedagógica:
a terceirização da educação
familiar. Ora, escola não é creche para
adolescentes. Professores não têm liberdade de
impor limites a filhos que não os seus. E há
liberdades que não podem ser toleradas. Crianças
precisam, sim, de liberdade a fim de que descubram por si o
mundo, mas há de ser liberdade vigiada. Um olho no gato,
e outro olho no peixe. Crianças abandonadas a si mesmas,
ou sem limites, engolem moedas, tomam veneno, tocam fogo na
casa... e, quando crescem, não respeitam nada; quando não
se atiram no mundo do crime e das drogas. Pais ausentes deixam
vaga para os concorrentes. Depois, só resta chorar e
dizer que seu filho era bom menino, mas envolveu-se com más
companhias. Por isso, é sempre preferível dizer um
"não" doloroso na infância que chorar a
dura realidade de uma adolescência sem freios e
socialmente deformada. |